segunda-feira, 24 de julho de 2017

E estávamos em 2013- Ambientalistas querem “travar a desregulamentação radical das plantações intensivas na floresta”

As organizações ambientalistas LPN, Quercus, Geota, Fapas, Oikos, Gaia, A Rocha, Flamingo e SPEA apelam aos deputados da AR para que exijam uma apreciação parlamentar do decreto-lei 96/2013, relativo às ações de arborização e rearborização. As organizações consideram que o decreto é “potencialmente desastroso para o nosso país”, por reforçar “o desordenamento territorial e agroflorestal através da desregulamentação da plantação de espécies exóticas”.
Joe Curtin, Musetouch

domingo, 23 de julho de 2017

Um cisne negro que é um verdadeiro jardineiro! (com vídeo)

Corremos todos para ver cisnes num parque urbano e tal...só? Tirar umas fotos e vir embora? Certamente os(as) mais pacientes, irão com mais calma inteirar-se do seu ciclo de vida, sozinhos(as), ou com amigos(as) e filhos (as)? E se houvesse mais cisnes jardineiros nas nossas ruas? Para isso tínhamos que reformular quase tudo sobre a nossa mobilidade e repensar que realmente aceitamos acriticamente a ditadura do automóvel. Um vídeo real para reflectir e reagir, portanto!



Foi razoavelmente simples e levou o seu tempo e muita abertura de espírito na comunidade humana em que vive o nosso cisne negro. O (a) jardineiro (a)  adoptou o cisne desde cria e para o cisne bébé o adulto humano seria a "mãe". Portanto por imitação e por comportamento inato, tudo o que a "mãe" fazia,  o nosso cisne fez até chegar a adulto. Integrado na sociedade, tornou-se num belo jardineiro muito eficaz, sedutor  e mais: dá alimento aos peixes do lago!

sábado, 22 de julho de 2017

Campanha "Cowdfundind" - Ajude-nos a manter o Algarve Livre de Petróleo [PT | EN]


Por favor apoie-nos e faça o seu donativo! Poderá fazer o seu donativo participando na nossa campanha de crowdfunding.
Mais informações em Crowdfunding PALP
Muito obrigado pelo seu apoio!
Ajude-nos a manter o Algarve Livre de Petróleo.

Video da campanha (English subtitles)


sexta-feira, 21 de julho de 2017

Quercus e Acréscimo: Prevenção custaria 165 milhões por ano, fogos custam mil milhões

A prevenção de incêndios florestais custaria por ano 165 milhões de euros, quando os prejuízos resultantes dos fogos causam um prejuízo de mil milhões, seis vezes mais, segundo as contas das associações Quercus e Acréscimo.

| Economia

"É necessário, assim, mais investimento na prevenção e ordenamento florestal, de modo a inverter esta situação", diz-se num comunicado da Associação Nacional de Conservação da Natureza, Quercus, e da Associação de Promoção ao Investimento Florestal, Acréscimo.

Os cálculos das duas associações tiveram em conta custos associados à abertura da rede primária de gestão de combustíveis (faixas sem arborização, com a floresta planeada para diminuir a superfície percorrida pelos incêndios, proteger casas e estradas e isolar potenciais focos de incêndio), a abertura e beneficiação de caminhos florestais e a recuperação e restauro de casas florestais.

Para os 165 milhões foram ainda considerados, dizem as associações, os encargos com o apoio, por cinco anos, a equipas de Sapadores Florestais, em recursos humanos e materiais, "prevendo a criação de duas equipas por concelho, bem como com a contratação de vigilantes por um período de quatro meses ao ano (junho a setembro)".

E engloba-se ainda encargos com a arborização de 1% da área continental com espécies autóctones de baixa combustibilidade, a realização do cadastro florestal simplificado em um milhão de hectares e a recuperação de 10 mil hectares por ano de áreas ardidas.

Quercus e Acréscimo lembram um estudo de 2012 feito por 21 personalidades que estima em mil milhões de euros os prejuízos económicos causados pelos incêndios anualmente, mas salientam que o mesmo não contabiliza "os incalculáveis custos com a perda de vidas humanas" e os encargos ambientais e sociais.

Os incêndios levam, frisam, à delapidação de recursos naturais, com destaque para o solo, à depreciação do território, com impacte na paisagem e no turismo rural, e a prejuízos para a saúde pública, pelo aumento da poluição para a atmosfera e para o meio aquático.

Considerando urgente atuar sobre "este problema nacional", Quercus e Acréscimo apelam no comunicado a "mais investimento na prevenção e ordenamento florestal" e a "sanções para os municípios que não cumpram a legislação de defesa da floresta contra incêndios".

"É inadmissível que ano após ano exista cada vez mais investimento em combate aos incêndios do que na prevenção dos mesmos", dizem a Quercus e a Acréscimo.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

As Alcarias das Amizades, por Luís Carloto Marques

Uma crónica e um texto pungente, ecológica e humanista, um testemunho do meu amigo Luís Carloto Marques que partilho com estima e retrata muita realidade, em particular as Alcarias. A ler, portanto.

Apelido de origem árabe, o mesmo quer dizer, povoado pequeno, no cume de duas Alcarias, a do Frio e do Cume, na freguesia de Santa Catarina da Serra, do concelho de Tavira, em dias límpidos vislumbra-se a torre de menagem do Castelo de Beja.
Em 1984, já lá vai tanto tempo, mas que minha memória guarda em lugar bem vivo, percorri estas serranias algarvias de bicicleta, do qual se vislumbra também o oceano mediterrânico, mar manso e quente, sepulcro recente de uma das mais recentes tragédias da humanidade, de crianças, mulheres e homens que fogem da guerra, a expressão mais horrenda da falta de harmonia entre os seres humanos.
Recordo-me que na subida de uma ladeira, na época todas as estradas estavam sem pavimentos, a corrente da bici partiu-se e de mecânico tive que fazer no local.
Procurava, um sábio, que conhecia como o Senhor Joaquim das Casas Novas.
Parece que foram ontem os dias que por lá estive, recolhi amêndoas verdascadas das amendoeiras e jamais me esquecerei, que com mais de oitenta anos, o sábio subia às árvores como se fosse uma criança.
Em maio de 2017 regressei, para cumprir uma promessa sempre adiada.
Não conheço melhor oferenda, esta, a de oferecer a alguém, regressar ao seu lugar de infância, onde foi menino, onde brincou, onde sonhou e fez os seus amigos de infância, que perduram e resistem à erosão dos tempos.
Já não foi uma prenda completa, porque era dupla, para dois irmãos, meus vizinhos. Um estará sempre na minha memória e habita dentro do meu sagrado
Emocionante ver os amigos a reencontrarem-se, a relembrarem os tempos de infância, na escola, nas brincadeiras de criança, a observarem os horizontes, onde também tanto trabalharam na demanda de sustento, em terras magras.
Um amigo recordou e disse em voz bem audível, que jamais se esqueceria, da preocupação, do meu amigo, que numa determinada noite, depois de uma ida a uma festa a uma localidade, se preocupou com o seu vizinho, bateu em noite escura à sua porta para saber se estava bem com a sua saúde.
Vi imagens de um moinho prostrado no chão e observei o mesmo de velas bem abertas, a saborear o sabor do vento e a moer cereais. Um cidadão, que percorreu o mundo e se fez empresário, sonhou em edificar e dar vida às pedras deitadas no chão. Reviveu a sua memória, dando sentido a um local cimeiro, sendo o único moinho de vento que perdura em todas as serranias.
Em Alcaria do Cume, no derradeiro restaurante local, a surpresa maior, foi de quem confeccionou os alimentos.
Não me deu autorização a divulgar as imagens que recolhi, mas sim o texto que gravei. E assim o farei em tempo oportuno.
A Senhora Celeste não é só poetisa popular, com palavras cheias de ritmo, que reavivam os idos tempos de trabalho bem árduo. É uma analista, alguém que observa, muito bem, os novos relacionamentos entre as pessoas e identifica o mundo que a rodeia, como uma assertividade impressionante.
Observei os montes com declives acentuados, já sem árvores, relembro-me do incêndio de 2004, que começou em Almodôvar, numa desavença entre vizinhos/rendeiros, que calcorreou montes e serras e só estancou defronte do oceano.
Acredito, e muito, que as serras do Algarve, esta em particular, são um travão ao avanço deserto, numa época onde são mais do que evidentes as alterações do clima.
Nas serranias faltam pessoas, porque já não existem árvores, nem solo para o cultivar, nas cidades que se descaracterizam, sobram cidadãos, muitos a residir em locais com escassas condições de vida.


Embora as condições endafoclimáticas, sejam substancialmente diferentes, e consequentemente as soluções seriam complementares, ainda me revejo no sonho feito em realidade de Elzeard Bouffier, expresso no romance de Jean Giono e ilustrado num filme animado de Frederic Pack, conhecido O Homem que Plantava Árvores.

É possível renascer também nas serranias do Algarve.

Todas as fotos por Luís Carloto Marques

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Agostinho da Silva- Textos Pedagógicos

Beatrix Whistler, 1857 - 1896

“(...) a amizade pela árvore, pelo riacho, pelo animal livre é indispensável para a formação de um ser humano que pretendemos amplo e nobre” - Agostinho da Silva, O Método Montessori (1939), in Textos Pedagógicos I, p.232.

"(...) the friendship for the tree, the brook, the free animal is crucial for the formation of a human being that we intend to be broad and noble"

Obrigado, Paulo Borges

terça-feira, 18 de julho de 2017

Que fraude nos biológicos?, por Plataforma Transgénicos Fora

Arte de Rua- por LUDO, Paris, 2010 - por Raggio Bianco
O artigo da Visão de 29.6.2017 aponta a presença de resíduos de pesticidas de síntese química em alimentos de agricultura biológica, onde estão proibidos. Foram detetados pesticidas em 21 dos 113 alimentos analisados (18,5% das amostras). Apenas um alimento (0,9%) tinha resíduos acima do limite máximo (LMR) legal para a produção convencional (caso do glifosato em couve-coração). Em cinco outros é referido que os teores estão acima dos níveis indicativos de possível fraude para a produção biológica (valores estes que são menores que o LMR).

Assim, os dados apontam para que, nas 113 análises, sete sejam de provável fraude (6,2%). Incluem-se as bagas Goji chinesas, que contêm 8 pesticidas diferentes - o que é inaceitável. Para os restantes 14 alimentos com pesticidas, os baixos teores apontam para contaminação adventícia ou importação de países onde as regras para o bio não são iguais. Ou seja, razões não fraudulentas.
O caso do glifosato é o mais estranho, pois este herbicida mata as couves em que for aplicado. A amostra devia ser testada de novo (para despistar erros) em laboratório com análises acreditadas (o Labiagro, escolhido pela Visão, indicava em documentação recente que as suas análises ao glifosato não estavam acreditadas).

Os resultados obtidos pela Visão são graves? Nem por isso, de acordo com os dados oficiais mais recentes sobre pesticidas em toda a União Europeia:
- alimentos com pelo menos um pesticida: 47% no convencional e 14% no biológico (19% no estudo da Visão);
- alimentos com resíduos acima do LMR: 2,9% no convencional e 0,7% no biológico (0,9% no estudo da Visão);
- alimentos biológicos com resíduos que indiciam aplicação fraudulenta: 8,3% (6,2% no estudo da Visão).

A terceira comparação mostra que no que toca a fraudes a Visão encontrou uma situação mais favorável ao biológico do que existe na média europeia. Isto nega muito da suposta gravidade revelada no artigo e permite concluir que a "fraude" não terá a dimensão que lhe é atribuída. Quanto à diferença de 5% na primeira comparação ela pode vir, por exemplo, de o jornalista ter comprados vários alimentos bio de uma só marca (qualquer falha nesse produtor vai inflacionar a média). Além disso é voz corrente que as lojas da especialidade são mais cuidadosas com a origem dos produtos. Qual a percentagem de alimentos contaminados nos hipermercados e qual nas lojas que só vendem biológico? Tudo isto pode mudar os números.

Comunicado completo na Plataforma Transgénicos Fora

segunda-feira, 17 de julho de 2017

As lições a retirar do colapso de civilizações no passado, por João Paulo Soares

Passado e Hoje. Old and Today, Julho de 2017- por João Soares

As lições a retirar do colapso de civilizações no passado
                                                                              Chassez le naturel, il revient au galop!

(Expulse o natural, ele volta a galope!)

O discurso proferido sobre as alterações climáticas em curso, o aquecimento global, pode incutir uma crença que é a vingança ou a revolta da natureza contra a artificialidade crescente do ambiente criado pelos seres humanos e que o natural se reafirma com força por meio das catástrofes. Furacões, ciclones, tornados, inundações e secas mostrariam haver uma natureza "lá fora", de cujos ciclos o homem se faz vítima. No entanto, como Jared Diamond defende no seu livro “Colapso”, parece mais razoável pensar de outra forma: humanos, não-humanos, atmosfera, oceanos integram-se num nível sistémico, intrincado, complexo. É o facto que o efeito-estufa ilumina. Não há vingança, e sim, revelação definitiva da quase organicidade da relação do homem com o meio. 

O "natural" é modificar o ambiente. Como bem frisou Richard Lewontin em “A Tripla Hélice”, qualquer espécie de ser vivo, ao utilizar recursos escassos do ambiente e devolvê-los em formas que não podem ser utilizadas novamente por indivíduos da própria espécie, está a modificar o ambiente de forma "natural". Nada mais comum que comer, e nada mais ilustrativo da destruição micro-operada por cada célula viva: o metabolismo transforma comida em restos, produtos a serem excretados.

No entanto, há algo de peculiar no "terceiro chimpanzé", o Homo sapiens, desde que ele "desenvolveu a inventividade, a eficácia e as habilidades de caçador há uns 50 mil anos".  A colonização humana de qualquer grande extensão de terra virgem sempre foi seguida de enorme impacto ambiental: derrube de florestas, extinção de grandes animais "que evoluíram sem temer os seres humanos e foram facilmente abatidos, ou que sucumbiram à mudança de habitat, introdução de espécies invasoras e doenças trazidas pelo homem". A mesma história se repetiu na Austrália, na América do Norte, na América do Sul, em Madagáscar, nas ilhas do Mediterrâneo, no Havai, na Nova Zelândia e em diversas outras ilhas do Pacífico. Segundo Diamond, descobertas recentes de arqueólogos, climatólogos, historiadores, paleontólogos e palinologistas (especialistas em pólen) têm confirmado a suspeita de suicídio ecológico não-intencional por parte das sociedades que entraram em colapso. 

Mas o autor não crê num cenário apocalíptico de extinção da humanidade ou da civilização industrial. "Tal colapso pode assumir diversas formas, como a disseminação mundial de doenças ou de guerras provocadas pela escassez de recursos naturais". Na sua "estrutura de cinco pontos" de possíveis factores capazes de contribuir para um colapso, quatro - danos ambientais, alterações do clima, vizinhança hostil e parceiros comerciais corruptos - "podem ou não se mostrar significativos para uma determinada sociedade. O quinto factor- as respostas da sociedade aos seus problemas ambientais - sempre se mostrou significativo". 

Fica também implícito, no que Diamond diz, que confiar em tecnologias capazes de salvar o mundo é uma abordagem temerária. Das civilizações que entraram em colapso no passado e as que correm risco de entrar no presente, muitas dispunham de sofisticados aparatos tecnológicos para os padrões de seu tempo. No seu livro demonstra que as civilizações que ainda perduram, região a região, ilhas ou países foi devido ao facto de encontrarem soluções de eficiência que muitas delas passam por uma cultura e atitude de conservação dos recursos naturais e de precaução por parte dessas populações. Também não se deve entregar às indústrias, às empresas, às escolas, aos tribunais, à academia e/ou ao governo como os únicos que se comprometam a mudar de atitude: "nós, o público, temos a responsabilidade final".

domingo, 16 de julho de 2017

A Ginkgo biloba alberga no seu interior uma alga verde unicelular


Ginkgo biloba é uma espécie arbórea, cujos ancestrais surgiram no final da Era Primária. Esta espécie chegou à actualidade, porque encontrou refúgio em vales profundos, quentes e húmidos, no Sudoeste da China, permanecendo inalterada desde há milénios.

Árvore de grande porte, de 25 a 40 metros de altura, alberga no interior das suas células uma alga verde unicelular, que participa no seu metabolismo. Esta associação rara é uma endossimbiose.

Quando Jocelyne T. Guiller (artigo científico aqui) procedia a estudos citológicos em G. biloba, observou que as suas células em cultura, desprovidas de parede, entravam em necrose em poucas semanas. Em paralelo, surgiam, neste meio, amontoados de formações esféricas de um verde brilhante.

Constatou, posteriormente, tratar-se de uma alga unicelular do género Coccomyxa. Posta a possibilidade de ter ocorrido contaminação externa do meio de cultura, a observação de intensa proliferação da alga, no interior de células de G. biloba em necrose, veio confirmar a origem endógena desta alga.

Observações feitas posteriormente permitiram detectar a existência de Coccomyxa, num estado celular transitório imaturo, em células não necrosadas de diferentes tecidos de G. biloba. Estas formas precursoras da alga não apresentam quaisquer organitos visíveis num citoplasma homogéneo. Supõe-se que a existência de formas imaturas da alga em células vivas de G. biloba se deve à repressão exercida pelo genoma da árvore sobre o genoma do intruso tolerado.

Este passa a poder manifestar-se quando as células daquela entram em necrose, possibilitando, então, a proliferação da alga. Esta relação simbiótica, que se revela estável, poderá ter começado no momento em que uma alga do género Coccomyxa, ocasionalmente alojada perto do gâmeta feminino, terá sido conduzida até ele com os gâmetas masculinos. Incluída no ovo, a alga terá resistido à digestão intracelular, ajustando o seu processo de divisão no interior do hospedeiro.

Estudos genéticos de amostras de Coccomyxa recolhidas em G. biloba, em diferentes locais do globo, demonstraram semelhanças genéticas entre estas algas. Estas semelhanças sugerem que este tipo de simbiose intracelular foi e continua a ser transmitida de geração em geração.

Adaptado de T. Guiller, J., Pour la Science, Fevereiro 2008

sábado, 15 de julho de 2017

António Vicente um herói que plantou uma floresta de 200 km no estado de São Paulo

A primeira árvore que Vicente plantou foi um castanheiro.


António Vicente era chamado de louco pelos vizinhos.
Afinal, quem compraria um pedaço de terra a 200 km de São Paulo para começar a plantar árvores?
"Quando comecei a plantar, as pessoas me diziam: 'você não viverá para comer as frutas, porque essas árvores vão demorar 20 anos para crescer'", conta Vicente ao repórter Gibby Zobel, do programa Outlook, do Serviço Mundial da BBC.

"Eu respondia: 'Vou plantar essas sementes, porque alguém plantou as que estou comendo agora. Vou plantá-las para que outros possam comê-las."
Vicente, prestes a completar 84 anos, comprou seu terreno em 1973, uma época na qual o governo militar oferecia facilidades de crédito para investimentos em tecnologia agrícola, com o objetivo de impulsionar a agricultura.

Mas sua ideia era exatamente a oposta.
Criado numa família numerosa de agricultores, ele via com preocupação como a expansão dos campos destruía as fauna e flora locais, e como a falta de árvores afetava os recursos hídricos.
"Quando era criança, os agricultores cortavam as árvores para criar pastagens e pelo carvão. A água secou e nunca voltou", explica.

"Pensei comigo: 'a água é o bem mais valioso, ninguém fabrica água e a população não para de crescer. O que vai acontecer? Ficaremos sem água."
As florestas são fundamentais para a preservação da água porque absorvem e retém esta matéria-prima em suas raízes. Além disso, evitam a erosão do solo.

Recuperação da floresta
Quando tinha 14 anos, Vicente saiu do campo e passou a trabalhar como ferreiro na cidade.

Com o dinheiro da venda de seu negócio, pôde comprar 30 hectares em uma região de planície perto de São Francisco Xavier, distrito de 5 mil habitantes que faz parte de São José dos Campos, no interior de São Paulo.

"A vida na cidade não era fácil", lembra ele.
"Acabei tendo de viver debaixo de uma árvore porque não tinha dinheiro para o aluguel. Tomava banho no rio e vivia debaixo da árvore, cercado de raposas e ratos. Juntei muitas folhas e fiz uma cama, onde dormi", diz Vicente.

"Mas nunca passei fome. Comia sanduíches de banana no café da manhã, almoço e jantar", acrescenta.

Após retornar ao campo, começou a plantar, uma por uma, cada uma das árvores que hoje formam a floresta húmida tropical com cerca de 50 mil unidades.

'Nadando contra a corrente'
Vicente nadava contra a corrente: durante os últimos 30 anos, em que se dedicou a reflorestar a sua propriedade, cerca de 183 mil hectares de mata atlântica no Estado de São Paulo foram desflorestados para dar lugar à agricultura.
Segundo a Fundação Mata Atlântica SOS e o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a mata atlântica cobria originalmente 69% do Estado de São Paulo.
Hoje, a proporção caiu para 14%.
E, ainda que esteja distante do pico de 2004, quando 27 mil hectares foram destruídos, o ritmo de desmatamento voltou a aumentar.
Entre agosto de 2015 e julho de 2016, por exemplo, foram destruídos 8 mil hectares de floresta - uma alta de 29% em relação ao ano anterior e o nível mais elevado desde 2008, segundo dados do Inpe.

Animais e água
Um quadro pendurado na parede da casa de Vicente serve de lembrança das mudanças que ele conseguiu com seu próprio esforço.
"Em 1973, não havia nada aqui, como você pode ver. Tudo era pastagem. Minha casa é a mais bonita de toda essa região, mas hoje não se pode tirar uma foto desse ângulo porque as árvores a encobrem, porque estão muito grandes", brinca Vicente.

Com o replantio, muitos animais reapareceram.
"Há tucanos, todo tipo de aves, pacas, esquilos, lagartos, gambás e, inclusive, javalis", enumera.
"Temos também uma onça pequena e uma jaguatirica, que come todas as galinhas", ri.
O mais importante, contudo, é que os cursos de água também voltaram a brotar.
Quando Vicente comprou o terreno, só havia uma fonte. Agora, há cerca de 20.